sexta-feira, 31 de julho de 2009

G.Marriet

A bebedora de absinto - Picasso (1901)

G. Marriet

Havia comprado a passagem para o comboio das 23h17. Se havia imagem da qual não se queria desfazer era a da sua triunfante chegada à Gare St. Lazare. O manifesto futurista dos candeeiros a alta velocidade, dividindo Montmartre e Pigalle, desenhando acordeões e concertinas, café-cremes e cavaletes. E um futuro que era bem mais alto do que conseguia sonhar. Eram 23h17 há 20 anos atrás.


Tão incerta como o tempo, Germaine Marriet, do alto de todas as suas manchetes, da auto-estima tipograficamente construída, das colunas do Le Monde e dos cabarets engasgados de gente, Marriet “la belge parisienne”, decidiu que era tempo de voltar. De um só trago, engoliu a réstia de absinto do copo baço, perdido em cima da mesa, e pela primeira vez sentiu o álcool rasgar-lhe a garganta, sem aplausos cegos ou bouquets de lilases, como quem mata um porco em Haute-Garonne. Instintivamente, deixou as moedas em cima da mesa. Já não precisava de as contar. Sentia-lhes a textura do mesmo modo que o cheiro do passar dos anos. Até logo, Jacques. Como todos os dias.


Às 23h17 o comboio partiu em direcção a Bruxelas, parando em Lille. Relembrou Antoine, o seu primeiro amor. Antoine era aquilo que na Bélgica se apelidava de flamingant, um rapaz de direita com algumas boas ideias para mudar o Mundo. A empatia, na estação de Lille, foi imediata. As diferenças ideológicas entre ambos pareciam contribuir para que a paixão se mantivesse viva e as tertúlias entre amigos raramente acabavam antes da madrugada. Embora nunca tivesse sido muito dada a questões políticas, a condição artística de Marriet empurrava-la para uma ala mais à esquerda. Inevitavelmente, 3 anos de rebuliço artístico em Paris arrastaram Marriet para longe do parlamento, das políticas económicas e do mercado capitalista que tanto pareciam fascinar Antoine. Em 1957, quando os 20 anos de Germaine queriam dizer apenas isso e quando Brel e Piaf lhe diziam mais que Antoine.


Chegou a Bruxelas já passava das 3 da manhã. O céu ensopado, como se nunca tivesse parado de chover nos últimos 20 anos. Abandonada, Bruxelas erguia-se apática e neutra à valsa da Europa, tímida como uma viúva que não sai à rua, inocente como uma jovem que tem horas para chegar a casa. Esperou durante meia hora pelo táxi que a iria levar a Grand Place, interrogando-se como teria sido a sua vida se nunca tivesse deixado a cidade. Mais calma, certamente. Estranhamente, aos 40 anos conseguia colocar a questão que aos 20 teria sido impensável.


Nas águas furtadas de um pequeno apartamento em Grand Place, o pai esperava-a vagarosamente, sentado num banco de madeira. Descascava uma laranja com a mesma languidez de quem aperta um nó de gravata numa manhã de funeral, aninhando as cascas num pequeno monte, saboreando o peso de cada gomo. O trinco rodou três vezes e o tempo definhou em Grand Place. Solene como quem espera um rei, como quem espera a morte, o velho ergueu-se, esquecido, levando a mão ao vulto errante de Marriet. Do outro lado de um abraço, a mesma janela, o mesmo vidro partido, o mesmo pombo, o mesmo pó. Lá fora a cidade enfraquecia e perdia-se na sombra de um novo começo.
Núria R. Pinto

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