quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Parte 1



Quando me sentei no sofá o écran da televisão estava forrado de um formigueiro ensurdecedor. Tinha já tantas imagens na cabeça que a minha mente não me deixava assimilar uma simples distorção que fosse. Mas era tudo tão claro. Ali, em frente à televisão era, definitivamente, tudo mais óbvio. As imagens mentais compunham-se, os flashes tornavam-se mais nítidos há medida que aquele formigueiro se prolongava. Talvez fosse disso que eu precisasse. De algo tão complexo ao ponto de tornar a minha mente mais clara. Mas só ali, sentada no sofá, em frente à televisão, me sentia no meu mundo. E o meu mundo era como este quarto. Forrado de todos os tipos de negro que possam existir: negro-solidão, negro-dor, negro-morte… mas com algumas pinceladas de vermelho-paixão e vermelho-sangue. Simples, não é? Para quê sair lá para fora? Se até as próprias cores da rua me fazem sentir angustiada. Para quê o branco-paz se o negro-solidão é a única paz que necessito? Simples, mas difícil de compreender aos olhos de quem vive às cores. Porque quem vive sobre a tela tem medo da noite, tem medo de amar e morrer. O meu mundo é mais do que isso. À medida que a porta se abre, ouvem-se as dobradiças ranger, sente-se o vento a trespassar-nos o corpo como lâminas. E dói. Dói muito. Mas não se preocupem, toda a gente, mais cedo ou mais tarde, se habitua. Os sentidos tornam-se cada vez mais apurados, o chão foge-nos dos pés e a sensação de vazio torna-nos mais leves. Pensem nele como um enorme quarto escuro, em que a única luz provém do formigueiro da televisão eternamente ligada e do vermelho ensanguentado do sofá. Sentem-se. Vou falar-vos de mim...
Núria R. Pinto

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