sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Conto instantâneo

São tantas as vezes que não sei quem sou. Em que me afundo entre um cigarro e outro, e te procuro em mim. É complicado, sabes? Mas quase sempre vale a pena tentar. Lembras-te? Quando a vida era tudo para ti…? Eu sei, desculpa.
Eram quase 7 da tarde. Aquelas tardes de nocturnas de Novembro, sabes? Em que a terra cheira a chuva e o ar cheira a luar. Em que as árvores nuas desenham formas medonhas. Lembras-te como eu tinha medo delas? E tu, talvez pensando que me assustarias, chegavas a casa coberto de galhos, a imitar o som do vento…Hoje dá-me vontade de rir. Queria que visses a tua figura!
Tinha acabado de pôr o último pedaço de lenha na lareira. Estava um frio de rachar, recordas-te? Nem imaginas as vezes que gritei ao teu filho para não andar descalço pela casa! Mas tu sabes como ele é…Acabou por se calçar quando lhe prometi um chocolate. Estava a guardá-los para pôr na nossa árvore de Natal, mas sabes como me é difícil resistir quando os seus olhos se enchem de luz. (Sabes como me custa quando ele me pergunta por ti? Quando me pergunta porque é que ainda não voltaste de casa da avó…)
Ele queria mostrar-te o desenho que tinha feito na escola. “Vai pô-lo em cima da mesinha da entrada”, disse. “O teu pai vai gostar muito”. Eu, tu, ele e o Tommy. “Mas o Tommy não tem pintas, Rodrigo!”. “Mas vai ter mamã, o pai disse…”
É sempre assim. Quase sempre assim quando caem os primeiro flocos de neve. O tempo parece que pára e eu fico para sempre sentada no sofá, em frente à lareira. A arritmia dos dias deixa de incomodar. O frio que me corta os lábios é tudo aquilo que me preenche a alma. Desculpa se hoje sou para ti um espectro do que já fui. Sei que te preocupas. Mas não o faças, são só estas poucas semanas de Novembro, tu sabes…
Quando me ligaram para casa, tudo estava em alvoroço. O teu filho corria pela casa, o cão tentava fugir dele, a TV aos berros, a comida ao lume! Nem me apercebi que te perdia. Que te perdíamos… “Vamos ter com o papá, anda!”
O Rodrigo meteu o gorro na cabeça e correu imediatamente para o carro. Com 5 anos e já quer conduzir, imagina lá! “Vamos onde, mãe?” Nem respondi.
Quando te vi a sair do carro foi como se, de repente, não existisse mais som, nem espaço, nem tempo… Só um lençol branco que te cobria, pequeno demais para os nosso planos de felicidade. O teu filho, tão pequenino, nem sabia porque estávamos ali… Achei que era novo demais, frágil demais, concordas comigo, não é? Talvez um dia lhe explique… Sim, talvez um dia, mais tarde…

Amanhã vamos decorar a árvore de Natal! Ele está ansioso… Perguntou-me se eu já tinha pedido a minha prenda ao Pai Natal. Com aqueles olhinhos sabes? Aqueles que eram tão teus… “O Pai Natal não existe, filhote. Para a mamã já não existe…” Ele abraçou-me. Deu-me um beijinho. “Existe sim, mamã, não fiques triste…e este ano vou pedir-lhe para trazer o papá de volta de casa da avó…”
Núria R. Pinto

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